Tava esses dias conversando com uma amiga muito querida. Ela me disse que tava querendo começar o VP ou algo parecido, mas, brincando, falou que não tava conseguindo encontrar o Ganesh interior, a motivação pra começar. Porque ela acha que a motivação tem que vir de dentro pra fora, não adianta começar a dieta por começar, e ela ainda não tá assim, animadona. Concordo com ela, tem que ser de dentro pra fora sim.

Então vou contar como comecei.

Foi por causa da minha aliança.

Sou uma pessoa totalmente ritualística. Gosto demais de rituais, de marcos e de símbolos.  Só tirei duas vezes a minha aliança: uma vez para ajustar/polir, logo após o casamento, e no fim da gravidez, quando virei o Froddo e usava a aliança num colar, por conta do inchaço. Tem todo um simbolismo das nossas alianças pra gente, levamos realmente a sério.

De modos que não tiro a bichinha pra nada, nem pra dormir, nem pra tomar banho. E meus dedos não são “acinturados”, ou seja, a parte do meio das falanges não é magrinha e nem tenho as juntas mais grossas. Meus anéis sempre ficam acertadinhos no dedo, e se engordo, fico com os dedos roliços.

Quando engravidei, estava acima do peso. Logo que a Gui nasceu, consegui emagrecer até que bem (foram 10 quilos numa tacada, logo na primeira semana), mas vários motivos me impediram de conseguir continuar emagrecendo. Daí ficou nesse emagrece-engorda-emagrece-engorda-engorda-emagrece-engorda-engorda. Me recusei a acreditar que seria definitivo, que eu tava efetivamente gorda ou obesa, e que aquele seria meu peso. Aquilo, pra mim, era uma situação temporária, me recusei a incorporar aquele peso como sendo meu. Essa negação talvez tenha feito com que eu demorasse pra tomar alguma atitude do tipo me inscrever efetivamente no Vigilantes, mas ei, foi meu jeito de lidar com a situação, deixa eu. The Nile is not just a river.

Por conta da negação, deixei todas as minhas roupas de magra no armário. Dei apenas as que não curtia mais, mas as que eu gostava ficaram todas lá, me esperando. E roupas de gorda, comprei apenas o indispensável pra poder sair na rua sem ser presa e poder trabalhar com alguma dignidade. Afinal, aquele não era meu manequim, não podia ser meu manequim, se eu aceitasse aquilo, eu tava perdida.

Aquele peso todo me causava desconforto, não apenas físico, como também emocional. Meus joelhos doíam, meu corpo doía. Eu estava macia, e isso me causava uma sensação de vergonha muito grande. Maguido nunca, jamais, em tempo algum, me cobrou absolutamente NADA nesse sentido. N.A.D.A. Um dos 582875834767536 motivos pelo qual eu amo esse homem, inclusive.  Sequer uma mísera insinuação. Por outro lado, ouvi grosserias incríveis de pessoas que sequer estão em condições, elas mesmas, de fazer qualquer comentário nesse sentido.

E por que não fiz nada? Por que deixei chegar onde chegou? Qual o motivo de ter alcançado 91,1 quilos pra dar o primeiro passo?

Acho que é como a minha amiga disse. A motivação ainda não tinha sido interna. O incômodo ainda era apenas externo. Eu não me sentia gorda, eu apenas estava gorda, dá pra entender? Ia tocando o barco, ia levando as coisas, ia tocando minha vida de forma relativamente funcional, e vamos nessa.

Até que um dia, meu braço esquerdo começou com uma dor estranha. Minha mão esquerda começou com uma dor estranha. Achei que era minha amiga LER/DORT, e tava até pensando que tinha que comprar meu kit-tendinite básico, mas a dor não era bem aquela.

Daí que olhei pro meu dedo anelar esquerdo, pra aliança, e tinha sanguinho embaixo. Tipos, meu dedo tava tão gordo e a aliança tava tão apertada, que tinha feito uma lesão no dedo, um leve corte na pele, e tava sangrandinho. Não tinha nem como tirar a aliança, porque não ia nem pra frente nem pra trás, tava entranhado mesmo. Se mexesse, piorava. Fui pro banho, pra ver se dava pra aliviar a dor, mas só deu pra limpar mesmo e passar antisséptico. Poucas vezes na minha vida chorei tanto, e nem era de dor.

Foi ali. Ali foi meu fundo do poço. Meu estado de total miserabilidade de alma. Foi ali o dia que me senti gorda. Foi ali o dia em que bateu fundo a noção de que sim, eu não estava gorda, mas sim que naquele dia eu ERA uma pessoa gorda. Mas que eu não queria ser uma pessoa gorda, que isso não combinava comigo, e não porque os outros me diziam, mas porque eu realmente não me sentia assim. Meu eu interior é magro, minha alma é magra, e isso não tava combinando com meu corpo. Eu sempre gostei de andar, de me movimentar, e meu corpo não tava mais me acompanhando. Viver tava doendo, e isso, definitivamente, não estava nos meus planos.

Essa situação podia mudar sim, mas as coisas tinham que ser vistas como elas ERAM, e não como eu queria que elas fossem. E que enquanto eu não assumisse efetivamente aquele corpo como sendo MEU, como cada pedacinho dele, cada celulazinha de gordura como sendo minha, enquanto eu não aceitasse aquele corpanzil, pro bem e pro mal, nada ia acontecer.

Me acalmei e comecei a pensar no que eu podia fazer. Lembrei da única coisa que já deu certo na minha vida em termos de dieta/reeducação, que foi o Vigilantes do Peso, e comecei naquele momento. Saí daquele banheiro já de dieta, e contando pontos e medindo porções a partir dali.

Passei, primeiro, a fazer vários exercícios de auto aceitação. O primeiro deles, como já falei, foi reconhecer aquele corpo como meu, mesmo imenso. Agradeci por ter um corpo saudável, inteiro, que me permitia me movimentar, ser feliz, ter prazer, ter gerado minha filha a quem eu amo tanto. Levei uns 50 minutos, pra mais, fazendo isso, foi super difícil, porque eu tinha que ser absolutamente sincera comigo nisso. Enquanto não aceitasse meu pé esquerdo, não passava pro tornozelo, e assim ia pra cada pedaço do corpo. Pensa o tempo que levei na barriga (tive que ser grata pelo fato de a Gui gostar de deitar nela porque ela era macia – alguma coisa tinha que ter, né?).

E com esse sentimento de gratidão pelo meu corpo, resolvi que iria tratá-lo com carinho e dignidade. Comecei a comer certinho, me perdoando por escorregadas – afinal, a jornada seria longa, e escorregadas seriam totalmente normais, não seriam oscilações pra mais ou pra menos que iriam me tirar do rumo.

Na primeira semana, consegui baixar 2,5 kg, basicamente um desinchaço geral. Foi o suficiente pro dedo começar a cicatrizar. Devagarinho, consegui baixar 8 quilos. Daí, deu uma estacionada, a coisa não ia mais. Tava sentindo falta de ir pras reuniões do Vigilantes, e conversando com minha concunhada, tava aconselhando ela a ir, falando de como era bom, e de repente me ouvi falando. Percebi que tava dando o melhor conselho do mundo pra ela, e que seria legal se eu mesma seguisse esse conselho. No dia seguinte, liguei pro VP, vi que tinha reunião nesse mesmo dia, e fui. Era 31 de maio de 2010.

Nesse ano, descobri infinitas coisas sobre mim mesma, e continuo descobrindo. Tem sido uma viagem fantástica. O nome do meu deus interior e símbolo pra força e superação de obstáculos é Ganesh, já contei aqui como encontrei o caminho pra visualização e como o mantra me encontrou. Pra você pode ser qualquer outra coisa.

O importante, mesmo, é achar o que te move. É procurar dentro de você a centelha, o isqueirinho que acenderá a fogueira, seja pelo amor ou pela dor. Minha centelha foi meu dedo sangrando. Foi, literalmente, de dentro pra fora.

Claro que cada um tem seu tempo, sua necessidade e sua vontade. Se você está bem com seu corpo, ÓTIMO. Se você não tá a fim, ÓTIMO TAMBÉM. Não adianta forçar a barra. Não dá pra fazer dieta porque os outros querem, porque o médico mandou, porque a sociedade exige, porque o marido quer, ou pra competir com a amiga. Mas se você quer, tá a fim, precisa emagrecer, então faz uma forcinha, e busca dentro de você o que te move. Porque sim, cada um tem seu tempo. Mas o tempo passa, e dá pra ser plenamente feliz hoje, sem dor.

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Essas fotos são de ontem, com 28,100 kg a menos, e com a aliança folgadooona :)

A propósito, continuo sem tirar cutículas!