Cada dia, sabe-se lá como, eu me vejo mais e mais apaixonada pela minha filha.

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Ela é tudo de bom nessa vida, com fritas e dois ovos. É fascinante ver a personalidade dela, o jeito cool que ela tem. E o charme, né. Que isso vaza nela, pelos poros.

Uma das coisas mais legais que tou vendo com ela é que ela tem muito mais pra me ensinar do que pra aprender comigo. Que no geral a gente orienta, né, mas as grandes coisas da vida são com ela. A sinceridade, a delicadeza, a curiosidade perante o mundo, a fascinação por tudo que a rodeia, a obstinação e a coragem de se arriscar e tentar coisas novas.

Então, tive uma grande epifania: a Gui é minha Mágica de Oz.

Primeiro, porque por causa dela eu saí do meu mundinho fechado e fui pra um lugar muito lindo e brilhante e colorido. Foi numa grande tempestade, que minha gravidez não foi exatamente tranqüila, mas a chegada foi surpreendente.

Na sala de cirurgia, tudo muito intenso, que nem no meio do furacão da Dorothy. Todos muito preocupados com minha pressão, e eu absolutamente chapada, só querendo saber do meu bebê. Quando ela nasceu e ainda chorando, trouxeram ela pro meu lado e encostaram no meu rosto, meu Deus. Tudo fez sentido. Eu tenho guardada em mim a sensação molhadinha da pele dela, do cheiro de cobre que estava na sala, da montanha russa de sensações, de eu dizendo “bem vinda, minha filha” e de ela parando de chorar ao ouvir minha voz, e eu chorando loucamente por ela. Eu nasci com ela, de novo.

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Quando cheguei em Oz, matei a primeira das minhas bruxas internas: a insegurança. Por mais que batessem algumas dúvidas sobre o que fazer, e dificuldades naturais do cargo, nunca tive qualquer dúvida de que eu dava conta do recado.

Claro que ajuda é bom e necessário. E aí, né, rumo à Cidade das Esmeraldas, que eu tinha que encontrar minha Mágica de Oz, que iria me ajudar nisso. A estrada é longa, pra vida toda, tem alguns pedriscos e tropeços, mas é só seguir a pavimentação de tijolos amarelos. Essa é a parte que tou achando mais complicada: não sair do rumo. A tendência de querer fugir pras laterais e me distrair no caminho é o que me pega. O bom é que a estrada é fácil de seguir. E eu tenho uma sapateira com mais de 80 pares – inclusive prateados – e Micropore pra proteger os calos.

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Eu descobri no meio do processo o meu próprio Espantalho. Aquele, que queria um bom cérebro pra produzir excelentes pensamentos.

Por causa dela, leio mais ainda, me informo mais ainda. Fuço, converso, debato. Compartilho experiências, me relaciono com um monte de gente que nunca imaginaria conversar antes. Aprendi a conversar em fila de supermercado, com as pessoas da feira. Aprendi a controlar minha tendência de superproteger quem amo, e aprendi a deixar a Gui mais solta. Entendi que o grande segredo não é evitar as quedas, mas sim minimizar os danos e ensinar a levantar. Aprendi a dar a real dimensão às coisas, a confiar em mim mesma e a permitir que ela confie nela mesma. Aprendi a confiar no pai que Maguido é, e a contar com ele pro que for preciso.

Eu ganhei um cérebro que pensa mais rápido, que aproveita melhor o tempo, que resgata memórias de infância e de coisas que preciso ensinar. Um cérebro que facilita minha vida, que me faz uma profissional melhor, que desbloqueia entraves pessoais, que me ajuda a focar na estradinha amarela. Nunca trabalhar rendeu tanto, se eu já era rápida, tou mais ainda.

E também ganhei um cérebro que me deu senso prático. As coisas são mais fáceis agora, porque não me enrolo tanto pra fazê-las. E um cérebro que sim, tem bons pensamentos. A gente tem que ter fé no futuro e na humanidade, pra colocar nossos filhos aqui, né.

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Encontrei, na estrada, meu próprio Homem de Lata, e ganhei um coração de verdade. Se antes eu reagia com indiferença às dores do mundo, hoje elas me atingem em cheio. Descobri em mim uma capacidade de amar, que nem sonhava que existiria e que seria possível. Cada dia eu amo mais minha filha, meu marido e minha vida.

Aprendi a ter compaixão pelas pessoas, especialmente pelas mães – as tentantes, as adotivas, as que têm filhos com dificuldades, as que são imensamente felizes, as solteiras, todas as mães do mundo. Aprendi a agradecer a felicidade diária de ter uma filha com saúde e linda e inteligente e deliciosa.

E dentro do meu coração de verdade, há respeito por ela. Um respeito profundo, pela pessoa que ela é, e pelas fases que ela passa, pelo seu próprio ritmo.

Também encontrei meu Leão, que hoje não é mais Covarde.

A Gui me deu coragem. De todos os presentes que ela me deu, a coragem foi o mais precioso. Por ela eu posso tudo, faço tudo. Mato e morro por essa menina, e eu realmente falo sério. Ela me deu força pra encarar o mundo, pra peitar quem me afronta, pra brigar pelo que mereço. Me ensinou a fincar o pé, a estabelecer limites, a não ter medo de ser quem eu sou.

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Aprendi a ter coragem pra pedir ajuda – logo eu, que sempre fui tão auto-suficiente. Aprendi a ter coragem de delegar tarefas. Aprendi a ter coragem de deixar minha filha com outras pessoas. Aprendi a defender meus pontos de vista sem dó e sem medo. A Gui me ensinou a ter coragem de não deixar ela fazer o que quiser e a encarar os bicos que ela faz.

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Aprendi a ser forte. Chega a ser perigoso, tanta coragem junta.

E mais ainda, aprendi que o importante é voltar pra casa. Não há lugar como o nosso lar.

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Ja faz um ano e um mês que a gente se conhece, filha. E continua sendo mágico.